QUANDO QUEM CUIDA TAMBÉM SE ESGOTA

Quando quem cuida também se esgota

Há profissões cujo trabalho é fácil de medir. Existem objetivos concretos, indicadores de desempenho, relatórios e resultados que traduzem, de forma mais ou menos objetiva, o valor que acrescentam às organizações.


Depois existem outras profissões cujo contributo raramente cabe numa folha de cálculo.

Os profissionais de Recursos Humanos, gestores de pessoas e muitos líderes passam uma parte significativa do seu tempo a fazer um trabalho que dificilmente aparece na descrição de funções, mas que é essencial para o funcionamento das organizações: escutam, acolhem, mediam conflitos, acompanham processos de mudança, gerem expectativas, apoiam decisões difíceis e ajudam outras pessoas a navegar momentos de elevada exigência emocional.

São, muitas vezes, os primeiros a chegar quando alguém precisa de apoio e os últimos a sair quando ainda há problemas por resolver. Vestem a camisola, mantêm a calma quando tudo parece instável e procuram transmitir segurança, mesmo quando, por dentro, também enfrentam dúvidas, pressão ou desgaste.

Este trabalho tem um valor enorme. Mas tem também um custo.

Um custo que raramente é discutido, porque não deixa marcas visíveis e porque quem está habituado a cuidar dos outros nem sempre reconhece quando também precisa de ser cuidado.

O desgaste emocional nem sempre se parece com cansaço.

Quando pensamos em desgaste, imaginamos normalmente alguém exausto, sem energia ou incapaz de continuar a trabalhar. No entanto, o desgaste emocional instala-se muito antes desse ponto.

Pode surgir de forma subtil. A paciência começa a diminuir. A capacidade de escuta torna-se mais limitada. Pequenos problemas parecem maiores do que realmente são. As decisões exigem mais esforço. Aquilo que antes gerava satisfação passa a ser apenas mais uma tarefa.

Curiosamente, muitas pessoas continuam a ser altamente competentes nesta fase. Continuam a cumprir objetivos, a responder a e-mails, a conduzir reuniões e a apoiar colegas. Por fora, nada parece diferente. Por dentro, começam a sentir que estão a funcionar em piloto automático.

É precisamente esta invisibilidade que torna o desgaste emocional tão difícil de reconhecer.

Não porque falte capacidade para trabalhar, mas porque começa a faltar disponibilidade para estar verdadeiramente presente.

 

O trabalho invisível que ninguém mede.

Grande parte da exigência destes profissionais não resulta apenas do volume de trabalho, mas da natureza desse trabalho.

Ao longo de um único dia, podem acompanhar um colaborador em sofrimento, preparar uma performance review, gerir um conflito entre equipas, apoiar um líder perante uma decisão difícil e, poucas horas depois, receber um novo colaborador com entusiasmo e disponibilidade.

Cada uma destas situações exige algo mais do que conhecimento técnico.

Exige autorregulação emocional.

A literatura designa este fenómeno por trabalho emocional: o esforço contínuo de gerir as próprias emoções para responder de forma adequada às necessidades emocionais dos outros.

Sorrir quando estamos cansados. Manter serenidade perante um conflito. Demonstrar disponibilidade quando o nosso próprio nível de energia já está reduzido. Transmitir confiança em momentos de incerteza.


Tudo isto faz parte do trabalho.
E tudo isto consome recursos psicológicos.


O problema é que este esforço raramente é reconhecido porque não produz resultados imediatamente visíveis. Não aparece nos indicadores de desempenho nem nas apresentações trimestrais. Mas influencia profundamente a forma como as pessoas vivem o trabalho e como as organizações funcionam – estaremos a falar intrinsecamente de cultura?

Porque é que quem cuida demora tanto tempo a perceber que também está cansado?

Existe um paradoxo curioso nas profissões centradas nas pessoas.


Quem desenvolve uma elevada capacidade para reconhecer emoções, necessidades e sinais de sofrimento nos outros tende, muitas vezes, a ignorar esses mesmos sinais em si próprio. Façamos o paralelismo com os cuidadores. Não por falta de consciência, mas porque o foco está constantemente voltado para fora.


Há sempre alguém que precisa de apoio. Um conflito para resolver. Uma equipa para tranquilizar. Uma mudança para acompanhar.


Com o tempo, esta disponibilidade permanente deixa de ser uma escolha consciente e transforma-se numa forma habitual de estar. É por isso que muitos profissionais descrevem a sensação de “aguentar bem” durante meses ou anos, até perceberem, quase de um dia para o outro, que já não têm a mesma energia, a mesma capacidade de escuta ou o mesmo entusiasmo pelo trabalho.

Na realidade, esse desgaste não apareceu de um momento para o outro.

Foi acumulando silenciosamente.

Recuperar energia emocional é diferente de descansar.

Quando nos sentimos emocionalmente esgotados, a primeira resposta costuma ser procurar descanso. Dormir mais, tirar férias ou aproveitar um fim de semana prolongado.

Tudo isso é importante.

Mas nem sempre é suficiente.

 

A energia física recupera-se sobretudo através do descanso. A energia emocional depende também da qualidade das relações que temos, do significado que atribuímos ao trabalho, da perceção de autonomia, da possibilidade de estabelecer limites saudáveis e da existência de espaços onde também podemos ser autênticos – Conselho Consultivo* – sem sentir que precisamos de sustentar emocionalmente mais ninguém.

Recuperar energia emocional implica voltar a ter momentos em que não estamos apenas a responder às necessidades dos outros.

Implica recuperar espaço interno.

Significa reconhecer que cuidar dos outros não exige abdicar continuamente de cuidar de si.

O papel das organizações

Durante muitos anos, a responsabilidade pelo bem-estar foi colocada quase exclusivamente nas pessoas. Incentivou-se a prática de exercício físico, a meditação, a gestão do tempo ou a criação de melhores rotinas.

Tudo isto pode fazer parte da solução.

Mas dificilmente resolve um problema cuja origem é, muitas vezes, organizacional.

Quando uma cultura valoriza a disponibilidade permanente, normaliza a sobrecarga emocional ou espera que determinados profissionais sejam sempre os pilares que sustentam os outros, está também a contribuir para o seu desgaste.

Cuidar de quem cuida exige mais do que iniciativas pontuais de bem-estar.

Exige líderes capazes de reconhecer o trabalho emocional realizado pelas suas equipas. Exige espaços seguros para refletir sobre experiências difíceis, momentos de supervisão, culturas onde pedir ajuda não seja interpretado como fragilidade e contextos onde a vulnerabilidade possa coexistir com a competência.

Porque ninguém consegue sustentar os outros durante muito tempo se nunca tiver oportunidade de recuperar a própria energia.

Uma responsabilidade que também é coletiva

As organizações falam frequentemente de talento, inovação, produtividade e desempenho.

Falam menos da energia emocional que torna tudo isso possível.

E, no entanto, é essa energia que permite escutar melhor, tomar decisões mais ponderadas, gerir conflitos com equilíbrio, construir relações de confiança e criar ambientes onde as pessoas sentem que podem dar o melhor de si.

Talvez esteja na altura de começarmos a olhar para a energia emocional como um recurso organizacional e não apenas como uma característica individual.

Porque as organizações são feitas de pessoas.

Mas são sustentadas, todos os dias, por profissionais que, muitas vezes em silêncio, cuidam das pessoas que as fazem acontecer.

E talvez a verdadeira cultura de cuidado comece precisamente quando deixamos de assumir que quem cuida tem de ser sempre aquele que nunca se esgota.

 

*Conselho Consultivo: grupo multidisciplinar de profissionais, cuja missão é a construção de um movimento estruturado, informado e colaborativo, que promova a integração da saúde mental e bem-estar como eixo central da cultura organizacional em Portugal.