Todos querem bons líderes. Poucos são os que os preparam.
No último evento do Pontos nos Is*, um dos temas debatido foi afinal, o que faz de alguém um bom líder de equipa? Perguntou-se ao público: “Para mim, um bom líder tem de…”.
As respostas foram diversas: “inspirar”, “dar o exemplo”, “transmitir confiança”, “ser empático”, “motivar”, “comunicar”, “proteger”, “ser uma referência” – todas elas a refletirem a exigência deste cargo. Mas houve uma resposta, que a meu ver, se destacou pela sua simplicidade e humanismo:
“Para mim, um bom líder tem de ser humano”.
Poderemos ver esta resposta à luz de duas vertentes:
1. No sentido de ser uma pessoa de pessoas e empática, disponível, verdadeiramente “humana”.
2. No sentido de ser alguém com espaço para falhar, nem sempre dizer a coisa certa, evoluir, melhorar, corrigir-se.
É sobre a segunda vertente que escrevo, porque me vou deparando frequentemente com uma exigência desmedida depositada nas lideranças, tanto nas consultas, como nas auscultações às empresas, como nas conversas em jantares com amigos que se queixam dos seus líderes (e provavelmente com alguma razão).
A verdade é que a responsabilidade deve ser repartida. As empresas continuam a pedir às lideranças cada vez mais visão, empatia, coragem, gestão emocional, performance e adaptação, ao mesmo tempo que as culturas internas não estão preparadas para potenciar, apoiar ou desenvolver este tipo de competência nos seus líderes.
O instinto leva-nos, muitas vezes, a responsabilizar exclusivamente quem assume o cargo, mas é bem mais desafiante, e até realista, reconhecer que ninguém lidera bem dentro de uma cultura que não o permite.
Ser-se promovido a líder vem muitas vezes com a ideia “achamos que serás um bom líder” e, de hoje para amanhã, alguém que nunca esteve nesse cargo vê-se perante o desafio de descobrir, grande parte das vezes, sozinho, como o ser e fazer. Há, portanto, uma falta de suporte aos líderes de hoje. Se se querem organizações mais saudáveis e melhor lideradas, então o foco tem de ser alterado:
1. Preparar a cultura, não apenas o cargo.
Não adianta formar líderes se a cultura continua a penalizar vulnerabilidade, a evitar conversas difíceis ou a promover urgência constante.
2. Dar suporte a todos os líderes – inclusive os “natos”.
Talento não substitui mentoria. A intuição não substitui as competências relacionais. Boa vontade não substitui formação emocional.
3. Criar espaços seguros.
Liderar sem poder admitir dúvidas não é liderança, mas sim sobrevivência. E culturas baseadas na sobrevivência criam equipas em exaustão.
Lideranças fortalecem-se dentro de culturas que reconhecem a complexidade do papel e que não esperam a perfeição, mas sim o “ser humano”. Está na altura de deixarmos de perguntar apenas quem lidera mal?” e começarmos a perguntar “que cultura estamos a criar para quem lidera?”.
Se pudermos assumir um compromisso claro para este ano, que seja este:
Menos culto do líder-super-herói e mais construção de culturas que sustentam quem lidera.
A liderança é responsabilidade de todos e não apenas de quem ocupa o cargo!
*Evento de desconstrução de mitos em torno da Saúde e Bem-Estar nas Organizações, organizado pelo Team Mind Matters.

